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Três décadas salvando vidas

Aos 80 anos, o médico cirurgião Carlos Moraes caminha pelos corredores do Real Hospital Português (RHP), no bairro de Paissandu, área central do Recife, carregando um coração cheio de histórias reais e emocionantes sobre renascimento. Muitas delas, contadas ao longo dos últimos 30 anos, revelam como o universo do transplante cardíaco possibilita, aos pacientes, recomeçarem a vida, quantas vezes for preciso. Na tarde de hoje, no Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe), no bairro do Espinheiro, Zona Norte da cidade, Carlos Moraes recebe colegas, pacientes e parentes para marcar os 30 anos do primeiro transplante cardíaco do Estado, realizado por ele.

“Meu filho (o também cirurgião Fernando Moraes) sempre fala que, nos últimos 30 anos, nós permanecemos em sobreaviso. E graças a essa condição, conseguimos, além de realizar os transplantes de coração, beneficiar muitos outros pacientes que nem precisam desse procedimento. Sabe por quê? Somos uma equipe acostumada a tratar doentes graves. Então, quem chega ao hospital numa condição mais severa também conta com nosso apoio, porque sempre há plantonistas do nosso programa à disposição”, relata Carlos Moraes. Para isso, ele diz contar sempre com um grande apoio do RHP.

Desde o primeiro transplante cardíaco de Pernambuco, realizado em agosto de 1991, Carlos Moraes soma 221 pacientes, de diversas faixas etárias, que passaram por esse procedimento e ganharam nova força no RHP, por terem recebido um novo coração, sob os cuidados da equipe comandada pelo médico. Os procedimentos também só foram possíveis porque famílias conseguiram se deixar tocar pela generosidade e dizer sim à doação de órgãos. É um consentimento que possibilita a transformação da dor da morte no renascimento de outras vidas. “Nunca interrompemos o programa nestes 30 anos”, frisa Carlos Moraes, que também instituiu, em 2012, o programa de transplante cardíaco do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip), localizado na Boa Vista, área central do Recife. Na instituição, de 2012 a 2014, a equipe do médico realizou 49 transplantes de coração, sendo seis deles em crianças.

Ao contar sobre a trajetória profissional, Carlos Moraes também ressalta que, antes da criação da Central de Transplantes de Pernambuco (CT-PE), em 1995, as adversidades eram imensas na área. “Mas, depois de instituída a central, tudo evoluiu melhor. E aqui destaco o papel de Noemy Gomes, que é atual coordenadora da CT-PE (leia matéria abaixo).” Tanto Carlos quanto Noemy falam sobre a agilidade que é necessária para a realização do transplante cardíaco. E nesse quesito, a tecnologia, a evolução da medicina, o planejamento e a humanização formam um quarteto necessário para o procedimento acontecer. Como pode, por exemplo, o coração de um doador voltar a bater no peito de uma outra pessoa no curto tempo de quatro horas?

A resposta a essa pergunta vem quando conhecemos o motorista aposentado Sílvio Mesquita de Assunção, 55 anos. Ele é o paciente número 59 de Carlos Moraes. Já passou por dois transplantes de coração e um de rim. O primeiro procedimento cardíaco foi feito em fevereiro de 2003. Ele conta que, dois anos antes, começou a apresentar sintomas sugestivos de infarto. Procurou uma emergência hospitalar, onde foi orientando a ir a um cardiologista. “Eu me sentia muito cansado e, meses antes do transplante, não conseguia realizar minhas atividades sem ajuda, como tomar banho. Mas, após ganhar um novo coração, ganhei outra vida. Sete anos depois, em 2010, tive outro problema e precisei passar por mais um transplante cardíaco. Voltou todo o filme na minha cabeça, mas não deixei de ter esperanças. Hoje, com o retransplante, continuo bem. Sou muito grato aos médicos, aos demais profissionais de saúde, a Deus e às famílias dos meus doadores. Se não fossem eles, não estaria contando hoje a minha história”, comemora Sílvio.

No pódio dos transplantes

Pernambuco é o Estado do Norte e Nordeste com o maior número de transplantes de coração no primeiro semestre deste ano. O levantamento, da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), ainda aponta que Pernambuco é o terceiro do País em transplantes de coração. Para esse órgão, houve um aumento de 100% nos procedimentos, neste primeiro semestre, comparando com o mesmo período de 2020: foram 8 transplantes de coração de janeiro a junho de 2020 e 16 no mesmo período deste ano.

“A pandemia da covid-19 impactou os transplantes de órgãos e tecidos em todo o País. Por isso, precisamos reaprender a fazer algumas etapas desse processo, como a adaptação das entrevistas familiares nesse novo contexto. Já estamos notando uma boa retomada, mas continuamos focados em capacitar as equipes e conscientizar a população sobre esse ato de solidariedade para que possamos salvar mais vidas”, afirma a coordenadora da Central de Transplantes de Pernambuco (CT-PE), Noemy Gomes.

Além disso, segundo o levantamento da ABTO, Pernambuco também desponta como o Estado do Norte e Nordeste com o maior número de transplantes de rim, medula óssea e coração nos seis primeiros meses deste ano.

A análise ainda mostra que os dados do primeiro semestre no País apontam que houve uma regressão até 2012 nas taxas de transplante de fígado e coração, 2011 de pulmão e até 2003 na taxa de transplante renal. “Pernambuco teve um aumento de 45,6% no número de transplantes de órgãos e tecidos neste primeiro semestre, comparativamente ao mesmo período de 2020. Mas podemos fazer mais. Para isso, queremos cada vez mais estimular o debate do tema na mídia, nas casas dos pernambucanos. Quando um ente querido informa, em vida, o desejo de doar, nós acreditamos que a decisão familiar pela autorização, apesar do momento de dor, será mais fácil”, frisa Noemy. Ela destaca que todo o processo da doação até o transplante passa por um rigoroso protocolo, que garante a segurança do doador, do transplantado e das equipes envolvidas.

De janeiro a junho deste ano, foram realizados, em Pernambuco, 616 transplantes — um aumento de 45,6%, quando comparado ao mesmo período do ano anterior (423). Além do crescimento de 100% nos transplantes de coração, aumentaram outros procedimentos: 64,9% de rim (74 em 2020 e 122 em 2021), 53,7% de córnea (201 em 2020 e 309 em 2021), 45,9% de fígado (37 em 2020 e 54 em 2021) e 15,6% de medula óssea (96 em 2020 e 111 em 2021). Ainda foram feitos três transplantes de válvula cardíaca e um de fígado/rim.