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UTIs para Covid têm ocupação abaixo de 50% em 19 capitais, melhor marca desde 2020

O cenário é o melhor desde o agravamento da pandemia, ainda no primeiro semestre de 2020

*Marcelo Toledo, João Pedro Pitombo, Leonardo Augusto, Katna Baran, Fernanda Canofre, Natália Cancian, Patrícia Pasquini, Ana Luiza Albuquerque, Júlia Barbon e Matheus Rocha

Dezenove capitais brasileiras têm nesta semana menos da metade de seus leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) na rede pública exclusivos para Covid-19 ocupados. É o que mostra levantamento feito pela Folha de S.Paulo junto às secretarias de Saúde de todas as capitais.

O cenário é o melhor desde o agravamento da pandemia, ainda no primeiro semestre de 2020, e é constatado num momento em que a vacinação contra o novo coronavírus avança no país. Até esta terça-feira (31), 63,5% da população tinham recebido ao menos uma dose, e 29,3% haviam completado o ciclo de imunização.

Com a redução de pacientes internados em estado grave, muitas capitais têm desativado leitos nas últimas semanas, mas há locais em que os índices ainda geram muita preocupação, especialmente diante do avanço da variante delta no Brasil.

É o caso do Rio de Janeiro, que tem 96% das vagas ocupadas -índice ligeiramente superior aos 95% de duas semanas atrás. Na capital fluminense, a delta já corresponde a 96% das amostras analisadas. Em outras sete capitais, os índices, ainda que baixos, também subiram.

Na cidade do Rio, o índice permanece quase constantemente acima de 90% desde março. Com o avanço da delta, a capital fluminense foi a primeira do país a registrar alta no número de casos e internações.

Nas últimas semanas, por exemplo, chegou ao maior patamar de casos de síndrome gripal desde o início da pandemia, e as mortes começam a subir entre os mais idosos, segundo a Fiocruz.

Além do Rio, o cenário é preocupante em locais como Curitiba, que teve aumento de cerca de 30% no número de casos ativos da doença no último mês. A flexibilização de medidas restritivas e o crescimento nos registros de aglomerações pela capital do Paraná são algumas das explicações para a elevação nas infecções.

Já a taxa de ocupação de UTIs se manteve praticamente estável na cidade em duas semanas, em 75%, mesmo com a desativação de 34 leitos no período. A fila de pacientes também diminuiu: de 12 para cinco pessoas aguardando vagas em Curitiba e região metropolitana na última segunda (30).

Entre as 19 capitais que estão com índices de ocupação inferiores a 50% em seus leitos na rede pública para pacientes em estado grave com o coronavírus, oito têm menos de 30% de ocupação: Vitória, Natal, Salvador, Florianópolis, Maceió, Macapá, João Pessoa e Rio Branco. Em comparação, no último levantamento feito pela Folha, eram 15 as capitais com ocupação abaixo de 50%.

Em São Paulo, 36% das vagas de UTI estão ocupadas, com oscilação negativa de um ponto percentual. A partir desta quarta (1º), parte dos leitos destinados ao tratamento da Covid passou a ser revertida para outras enfermidades. A cidade conta com 790 leitos de terapia intensiva para a doença, ante os 1.445 do auge da pandemia.

Pelos dados, é possível observar que a queda no uso de UTIs para Covid se acentuou em julho. Até o fim de junho, só duas capitais tinham ocupação inferior à metade das vagas disponíveis para tratar casos críticos da doença, número que subiu para quatro em 12 de julho e para 14 na última semana daquele mês.

Em contraste, o primeiro dos 38 levantamentos realizados pela reportagem, em maio de 2020, mostrou que sete capitais tinham mais de 50% das vagas de UTI então existentes ocupadas.

O mês mais crítico em relação à lotação dos leitos nas capitais foi março de 2021, quando em nenhuma semana houve sequer uma dessas cidades com menos de 50% das vagas preenchidas.

Além do risco com a variante delta, o infectologista do Hospital de Clínicas em Porto Alegre Alexandre Zavascki, professor da Faculdade de Medicina da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), alerta que o indicador de ocupação de UTIs sozinho não permite ler a situação real dos hospitais.

Ele alerta que, durante a segunda onda da pandemia, houve expansão da quantidade de leitos, mas ocupando espaços improvisados, com profissionais de saúde atendendo o dobro ou até mais de pacientes do que costumavam, o que pode afetar a qualidade do cuidado.

“Se um estado chegou a ter mil pacientes internados em UTI [no pico de 2021], por exemplo, agora esse mesmo estado tem 500 pacientes, o que significa que o número em unidade crítica, precisando de terapia intensiva, reduziu 50%. Porém, isso não significa na prática que a ocupação de leitos está em 50%, porque à medida que vai diminuindo o número de pacientes, esses leitos que foram criados provisoriamente vão sendo desfeitos e voltando às suas finalidades originais”, avalia.

Foi o que ocorreu em Goiânia, por exemplo: a taxa de ocupação, que era de 65% em 16 de agosto, recuou para 58% na última segunda-feira (30). No período, cinco leitos foram fechados.

A capital goiana é uma das sete com mais da metade das vagas em uso, ao lado de cidades como Rio, Curitiba, Porto Alegre e Belo Horizonte.

São Luís desativou 20 leitos e, ainda assim, a ocupação das UTIs caiu para menos de 50%: 47%, ante os 54% de duas semanas antes. A capital maranhense já iniciou a aplicação da terceira dose da vacina nos idosos que moram em instituições de longa permanência.

Já em Belém houve cenário inverso. A desativação de dez leitos contribuiu para o índice subir de 30% para os atuais 35%.

Em Salvador, a ocupação de leitos de UTI chegou a 27%, patamar mais baixo de 2021. O prefeito Bruno Reis (DEM) afirmou que o atual cenário na capital baiana deu mais segurança e tranquilidade para a realização de um evento-teste na última semana e que, caso o número de casos volte a crescer, poderá rever medidas de flexibilização.

No Distrito Federal, a taxa de ocupação de leitos de UTI para Covid estava em 57,9% no início da semana, abaixo dos 61% de duas semanas antes, o que fez com que leitos que eram destinados à enfermidade fossem transferidos para atendimentos gerais.

“Hoje o que percebemos é um aumento da demanda não-Covid em detrimento da demanda Covid, então precisamos redisponibilizar esses leitos”, disse a secretária-adjunta de assistência à saúde, Raquel Beviláqua. Segundo membros da secretaria, o objetivo é ajudar na retomada de cirurgias eletivas.