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A NAU DOS INSENSATOS, EM TEMPOS DE COVID 19

  

“A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.  (John Donne, poeta inglês)

É com um misto de indignação e tristeza, que começo essa narrativa. Há cerca de dois meses – escrevo em 21 de abril de 2020 – fomos duramente atingidos por uma pandemia, vinda do outro lado do planeta. Um ser sub microscópico, um filamento de RNA envelopado, com o nome de “Novo Corona Vírus 19”, se infiltrou – sem dó ou piedade – em nosso meio, contaminando de forma sorrateira e nefasta, a todos indistintamente, sem escolher classe ou condição social. Os mais frágeis, foram suas primeiras vítimas; na sequência, os mais expostos e desprotegidos. Com o alerta mundial, adotamos um estado de distanciamento social, única forma de bloqueio eficaz nesse momento, haja vista não existir (ainda), uma vacina contra a Covid 19. Tratamentos, com múltiplas drogas, já existentes em nosso arsenal terapêutico, carecem de validação científica; o mundo inteiro está envolvido na busca de um remédio miraculoso que nos proteja, ainda que temporariamente, desse inimigo invisível e sem barreiras. Em meio a esse pandemônio, estão os médicos, enfermeiros, auxiliares, socorristas, intensivistas, enfim, todos que compõem as equipes de saúde no enfrentamento da maior crise sanitária de todos os tempos.

No Brasil, parodiando o grande João Cabral de Melo Neto, temos o nosso “cão sem plumas”: o Sistema Único de Saúde, o SUS brasileiro – maior programa de inclusão social do mundo – que conta em seus quadros, os mais respeitados e capacitados profissionais em saúde do País, e uma capilaridade fantástica. Presente na esmagadora maioria dos 5.570 municípios brasileiros, o SUS, atende a 75% da população que dele depende. E, em alguns programas, 100% dos nossos cidadãos, são beneficiados:  vacinas contra gripe, poliomielite, sarampo, tétano, difteria, tuberculose entre outras. No quesito, transplantes de órgãos sólidos: fígado, coração, pulmão, pâncreas e rim, são procedimentos totalmente cobertos pelo SUS. Pois bem, tivéssemos um olhar coerente das autoridades, eleitas para defender as reais necessidades da população: saúde, educação, segurança, moradia digna e transporte decente. Tivéssemos serviços públicos eficientes e adequadamente disponibilizados ao alcance de todos; não estaríamos à reboque do acaso e em situação de iminente colapso das unidades de saúde, em diversos estados da federação.

Enquanto profissionais da saúde lutam dia e noite, em seus postos de trabalho; muitas vezes sem a devida proteção e apoio – faltam equipamentos de proteção individuais (EPIs) – faltam leitos em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), ventiladores mecânicos, leitos de retaguarda, medicamentos, faltam equipes sem desfalques, faltam locais com mínimas condições, para um bom atendimento aos pacientes. “Nunca tantos, deveram tanto, a tão poucos!”.

Hoje, o que mais se vê, são gestores correndo atrás do prejuízo. E não, por falta de aviso das entidades médicas! Tanto em nível nacional, quanto estadual, incluindo-se aí, os municípios, posto que, ao longo dos anos, é nosso mantra diário: carreira médica, equipes completas, condições de trabalho adequadas, saneamento básico e rede de estabelecimentos de saúde compatível com as necessidades da população. Faltou planejamento estratégico. Esse cenário nos causa indignação. A tristeza, declarada no início, é decorrente da falta de respeito e insensibilidade de alguns grupos, e também, de certas pessoas. Digo isso porque, em determinados prédios residenciais do Recife, grupos de condôminos e alguns síndicos, afixaram cartazes nas áreas comuns dessas unidades, com dizeres discriminatórios e preconceituosos, em relação a médicos e outros profissionais da saúde, moradores desses locais. O Conselho Regional de Medicina de Pernambuco, repudia com veemência esses atos revoltantes, vergonhosos, humilhantes e desumanos; fruto de um medo irracional e do desconhecimento a respeito dos cuidados que esses valorosos profissionais adotam, quando do retorno ao aconchego dos seus lares, onde finalmente podem desfrutar, em segurança – junto aos seus filhos, cônjuge e pais – de um mais que merecido repouso.

Finalizando, é nossa esperança, que todos esses ensinamentos, sirvam de alerta para tempos futuros. “Na vida, tudo passa!”. Momentos ruins e momentos bons… passam. A sabedoria consiste em saber usufruir ao máximo, os bons momentos, porque eles – infelizmente – também passam.

Mario Fernando da Silva Lins

Médico e presidente do CREMEPE