Publicado em: 01/09/2006 | Por: Lourival Quirino da Silva Jr.
“Me ouça rugir, sou um homem” é a frase inicial de um anúncio televisivo de sanduíches nos Estados Unidos e também o reflexo de uma nova tendência da publicidade de celebrar uma masculinidade cheia de testosterona.
Anúncios como o do homem que ruge, da Burger King, ou o protagonizado pelo veterano ator Burt Reynolds e seus musculosos companheiros “da mesa quadrada”, que discutem as leis que regem o mundo masculino entre goles de cerveja Miller, foram alguns dos que mais fizeram sucesso nos últimos meses. Entre essas leis, vale ressaltar, está a que dita quanto tempo se deve esperar antes de ir para a cama com a ex-namorada de um amigo.
Os fabricantes do carro Hammer também convocam os homens, mais especificamente aqueles que fazem compras em supermercados, a deixarem de tolices e a recuperarem a “virilidade”.
Literatura – Na área editorial, o sucesso do verão americano é uma corrente literária que defende os excessos alcoólicos e sexuais e que conta, entre suas obras, com figuras como Tucker Max, autor do best-seller “I Hope They Serve Beer in Hell” (“Espero que sirvam cerveja no inferno”) e cujo site já passou dos 200 milhões de visitas.
George Ouzounian e seu bem-sucedido “Alphabet of Manliness” (“Alfabeto da Masculinidade”) é outro do gênero, assim como Frank Kelly e seu “The Modern Drunkard” (“O Bêbado Moderno”).
Já no mundo acadêmico, Harvey Mansfield, professor da famosa Universidade de Harvard, lançou neste ano “Manliness” (“Masculinidade”), na qual convida o gênero masculino a reafirmar seu poder e identidade. Mansfield diz que os homens precisam recuperar velhas virtudes, como a firmeza de caráter e a segurança em si mesmos, e não devem ter medo de fazer uso delas em público. O acadêmico afirma que a maior parte das mulheres prefere este tipo de atitude.
Crise – Para Rose Cameron, vice-presidente da agência de publicidade Leo Burnett, o fenômeno demonstra a crise de identidade masculina. “O que vemos agora é a busca de uma nova definição do que significa ser homem”, declarou. Cameron acrescentou que “a era pós-industrial e o feminismo jogaram por terra o papel tradicional do homem”.
Trata-se de uma “crise mundial”, segundo a executiva, que afirma que os estudos globais realizados por sua agência mostram três padrões típicos de comportamento masculino.
O primeiro grupo define sua identidade em função da mulher: “são os “metrossexuais”, homens sensíveis que se preocupam com a moda e a estética”. Uma segunda categoria abrange os que definem sua identidade em função de “um papel mais amplo”, como a família e o trabalho. O terceiro grupo, e o mais ruidoso, é formado pelos retrossexuais, que são definidos em oposição direta à mulher.
A este tipo de homem são dirigidos anúncios como o “Manthem”, da Burger King, no qual o protagonista, um jovem faminto que fica ofendido com a minúscula porção servida para ele em um restaurante, deixa sua namorada horrorizada ao gritar: “Me ouça rugir, sou um homem!”.
Em seguida, ele consegue o que quer: um Texas Double Whopper. Com o sanduíche nas mãos ele vai para a rua, onde uma legião de homens o acompanha, levando cartazes que proclamam sua virilidade.
Cameron diz que o fenômeno recebe muita atenção, porém insiste que esta é uma minoria e o que se vê cada vez mais são homens comprometidos com sua família e que assumem tarefas tradicionalmente atribuídas à mulher.
Timothy Shary, um analista de cinema da Universidade Clark (Massachusetts) diz que Hollywood ainda não aderiu à moda do “macho man”. “Nos últimos cinco ou dez anos, Hollywood trocou os atores fortes fisicamente, um tanto brutais e reprimidos emocionalmente, por outros mais sensíveis, capazes de expressar suas emoções”, disse à Shary, para quem, agora, acontecerá um retorno ao padrão antigo.
Masculinidade voltou à moda, diz professor de sociologia
SÉRGIO DÁVILA
da Folha de S. Paulo, em Washington
“Não há nada errado em olhar sua mulher fundo nos olhos e dizer, sem medo: Sim, querida, em algumas situações, eu sou superior a você.” Quem diz isso não é Zeca Bordoada, personagem que era o estereótipo do machão popularizado pelo extinto “TV Pirata”, mas um dos titulares de filosofia política de Harvard, uma das universidades mais prestigiosas do mundo.
Harvey Mansfield é autor do recém-lançado “Manliness” (masculinidade, Yale University Press, 2006), em que defende os pontos da frase acima: homens são diferentes das mulheres, sim, em alguns aspectos superiores, e deveriam ter orgulho disso. Ah, e o metrossexual é uma aberração da natureza e deveria morrer. Em seu lugar, o retrossexual. Seu livro abriu caminho para uma série de outras manifestações culturais que vão na mesma linha e pregam uma certa renascença, vá lá, do “machismo esclarecido”.
Polêmicas não são estranhas a esse professor de sociologia de 74 anos, que ensina em Harvard desde 1962 e se casou em 1979 com uma ex-estudante sua, Delba Winthrop. Quando o ex-reitor Lawrence Summers anunciou que iria deixar seu cargo, depois de uma série de brigas com diversos setores de universidade, ele foi um dos únicos a ir a público em defesa do amigo. Também foi das poucas vozes a defender o intrusivo programa de vigilância doméstica implantado pelo presidente George W. Bush.
Na entrevista que deu à Folha, por telefone, Mansfield explica a teoria que defende em “Manliness”, de que vivemos numa sociedade “comum de dois gêneros”, e por que isso é ruim.
FOLHA – O sr. foi citado por um jornal dizendo: “Os homens devem parar de ter vergonha de ser homens”. Como assim?
HARVEY MANSFIELD – Os homens de hoje em dia vivem em uma sociedade comum de dois gêneros, uma sociedade em que o seu gênero deve importar o menos possível, portanto as diferenças entre os dois sexos são geralmente desprezadas e quase apagadas. Mas é uma característica do homem-macho que ele insista em seu sexo, em seu gênero e nas características que acompanham o seu gênero. Acredito, portanto, que a masculinidade bata de frente com essa sociedade comum de dois gêneros. Esse é o motivo principal pelo qual eu escrevi o meu livro. Vem deste conflito a razão do meu trabalho.
FOLHA – Como o sr. categorizaria o metrossexual dentro desta sociedade?
MANSFIELD – O metrossexual é o oposto do homem-macho, ele enfatiza o homem sensível. O homem sensível tenta ser aceito pelas mulheres pela proximidade que tem com elas e talvez também por outras pessoas, mas principalmente pelas mulheres. O metrossexual quer agradar, enquanto o homem-macho nem percebe que há outras pessoas em sua volta. Ele nem pensa em que impressão pode passar fazendo as coisas de um jeito ou de outro. Ele não tenta ser aceito, ele está feliz de ser como é, de ser diferente.
FOLHA – Vários artigos mencionam o seu livro como a plataforma intelectual de um fenômeno que está sendo chamado de “dudelit”, que tem no escritor Maddox a face mais evidente. A “Time” batizou o mesmo fenômeno de “Menaissance”. Existe mesmo esse movimento?
MANSFIELD – Sim, e me sinto muito honrado, acho o fenômeno interessantíssimo e gosto de ver que está ganhando espaço na mídia. Meu livro provocou muito mais respostas do que imaginava. Acho que a masculinidade está voltando à moda e que o feminismo está perdendo espaço, com certeza as mulheres estão insistindo menos em viver em uma sociedade comum de dois gêneros.
FOLHA – O sr. leu o livro de Maddox, “The Alphabet of Manliness” (o alfabeto da masculinidade)?
MANSFIELD – Sim. Gostei muito, ele tem razão em tudo o que diz [risos].
FOLHA – Qual a diferença entre masculinidade e machismo?
MANSFIELD – Acho que o machismo é uma masculinidade levada ao extremo, e pelo que eu sei os homens latinos gostam de praticá-lo. Sou favorável ao machismo, porque acho que, para enfatizar uma idéia, às vezes é necessário exagerar um pouco. Mas é necessário fazer a distinção entre ser masculino e ser sexy, e acredito que os latinos nem sempre fazem essa distinção. Acho que o ator italiano Marcello Mastroianni era um homem muito sexy. Sexy no meu ponto de vista está mais próximo do conceito de homem sensível que do homem-macho. Acho que o John Wayne seria um bom exemplo de como é o homem-macho, ele é muito masculino. Ele é atraente para as mulheres, mas não parecia prestar atenção a isso.
FOLHA – Então um homem-macho seria aquele que acorda de manhã e não se olha no espelho, é isso?
MANSFIELD – Exatamente.
FOLHA – O sr. concorda com analistas que dizem que existe uma propaganda feminista por trás do retrato feito dos homens na cultura popular atual?
MANSFIELD – Sim, mas há algumas exceções. O programa de TV “Desperate Housewives”, por exemplo, mostra muito bem os problemas dessa cultura dominada pelo feminismo. Mostra que os homens e as mulheres são diferentes, e o que acontece quando você tenta agir como se as diferenças não existissem. Em alguns episódios, os sexos trocam de papéis, e isso nunca funciona muito bem. É diferente do modo como os homens eram retratados em “Sex and the City”. Aquele programa era completamente dominado pela propaganda feminista, que eu particularmente acho muito irritante. Mas eu tento tratar o feminismo de maneira séria, no meu livro há um capítulo todo dedicado ao assunto.
FOLHA – Para voltar a “Desperate Housewives”, qual homem o senhor acha que melhor representa essa masculinidade a que o sr. se refere? Carlos, o latino, ou Mike, o encanador?
MANSFIELD – Os dois são bons exemplos do homem-macho, mas ainda acho que o latino se sai melhor [risos].
FOLHA – O seu livro prega que as pessoas deveriam voltar aos seus papéis tradicionais, “como a natureza queria”. O sr. também afirma que sim, as mulheres são inferiores aos homens em certos aspectos. O senhor quer dizer que os homens deveriam caçar e as mulheres deveriam ficar em casa procriando?
MANSFIELD – Isso seria simples demais, já avançamos socialmente e biologicamente demais para isso. Vivemos em sociedades avançadas, que transformaram um pouco os papéis que os homens e as mulheres devem cumprir. As mulheres não podem ser tão tradicionais como deveriam ser, elas precisam trabalhar para ajudar a sustentar suas famílias. E também não há mais trabalho suficiente em uma casa para uma mulher fazer depois que os filhos estão crescidos, elas ficam sem ocupação. Também acho que as mulheres de hoje dão valor ao reconhecimento que recebem por ter um trabalho. Esta parte do feminismo é muito boa, e nós nos ajustamos bem ao fato de que as mulheres estejam no mercado de trabalho. Mas as relações em casa é que estão mais confusas, e é lá que eu acho que a tradição precisa ser mais respeitada.
FOLHA – O senhor liga o feminismo ao marxismo e à esquerda. Pode elaborar mais?
MANSFIELD – O grande inimigo do feminismo é a divisão do trabalho pelos sexos. E é esse também o grande inimigo de Marx, mas com um outro ângulo. Preste atenção ao modo como a sociedade comunista é descrita, a idéia de que você deve ser sempre apto a mudar de papel, de ser muito flexível e nunca ficar parado em uma mesma rota. A causa original da divisão de trabalho é sexual, portanto o comunismo aponta para a direção de uma sociedade comum aos dois sexos. E é muito claro que as primeiras feministas nos EUA, assim como na Europa, como Simone de Beauvoir, vieram da esquerda.
FOLHA – O seu livro foi enxovalhado pelos liberais. Como o senhor lida com a crítica?
MANSFIELD – Dou de ombros. Não sou mais jovem e sou um dos poucos conservadores em Harvard, então estou muito acostumado a ser criticado, já tenho uma proteção natural.
FOLHA – O sr. é casado, e sua mulher trabalha. O sr. faz algum trabalho doméstico?
MANSFIELD – Sim, mas não muito. Mais do que gostaria [risos]. Eu lavo os pratos, tiro o lixo, mas essas são funções muito masculinas. Mas eu até lavo a roupa uma vez ou outra.
FOLHA – E quem é o homem da casa?
MANSFIELD – Eu sou o homem da casa, mas é ela quem manda [risos].
Da Assessoria de Comunicação do Cremepe.
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