Publicado em: 12/09/2006 | Por: Lourival Quirino da Silva Jr.
Anticoncepcional será entregue a maiores de 14 anos, sem consentimento dos pais. Sucesso na economia, país ainda é muito conservador; presidente comemora seis meses de mandato sob nova polêmica e mais protestos
A decisão de distribuir a pílula anticoncepcional conhecida como “do dia seguinte” em hospitais públicos provocou uma troca de acusações entre o governo da presidente Michelle Bachelet e a Igreja Católica do Chile.
Cardeais e bispos criticaram a medida, e prefeitos conservadores se negam a distribuir a pílula em suas cidades. A Corte Suprema recebeu duas ações para impedir a distribuição do anticoncepcional de emergência -que impede a formação do embrião quando ocorreram relações sexuais sem o uso de outro contraceptivo.
É a mais nova polêmica do mandato da presidente, que completou seis meses ontem. Bachelet enfrenta protestos estudantis desde maio, por mais recursos para a educação secundária, além de uma paralisação na semana passada de médicos e funcionários da saúde que pedem maiores salários.
A questão da pílula mereceu repúdio dos conservadores porque, com a iniciativa do governo, menores a partir dos 14 anos poderão recebê-la sem o consentimento dos pais, o que antes era obrigatório.
“A distribuição indiscriminada da pílula vai estimular a atividade sexual muito cedo, a transmissão de doenças venéreas e a Aids”, disse o deputado Marcelo Forni, do partido UDI, de direita.
“Se a pílula é consumida com o objetivo de eliminar uma gravidez, ela é abortiva. Essa medida vai incentivar a promiscuidade, é um ataque à família”, disse o cardeal Jorge Medina.
Bachelet, que é pediatra, separada e agnóstica, reagiu às críticas. “Ninguém vai impor suas crenças no Chile”, disse, ontem. “Não dá para tapar o sol com um dedo. Há gente que começa a vida sexual muito cedo e o governo tem que fornecer alternativas. A família tem que educar e orientar.”
Em clínicas particulares, a pílula está disponível sem grandes problemas. Estimativas dizem que há entre 160 mil e 200 mil abortos por ano no país, além de 40 mil partos de mães adolescentes.
Para o cientista político Patricio Navia, colunista do jornal La Tercera e professor da Universidade Diego Portales, a presidente fez bem em enfrentar os conservadores.
“A sociedade chilena é muito mais tolerante que a classe dirigente e Bachelet sempre ganha em temas de igualdade e saúde pública”, disse à Folha, de Santiago. “Como quando ela lutou para ser a primeira mulher na Presidência, essa iniciativa de combater a gravidez adolescente é um progresso.”
Para Navia, como a maior parte das mães adolescentes pertence a famílias de poucos recursos, a medida ajudará a “reduzir a desigualdade na atenção médica”.
Considerado um modelo de crescimento econômico, o Chile é um dos países mais conservadores do continente. O divórcio só foi aprovado em 2004 e o aborto não é permitido em nenhuma circunstância.
Aprovação recuperada – A presidente também reagiu ontem aos distúrbios durante a marcha em memória das vítimas do golpe militar de 11 de setembro de 1973 contra o presidente Salvador Allende. Encapuzados atiraram coquetéis molotov contra o palácio presidencial de La Moneda – onde Allende se suicidou. “Ver La Moneda em chamas como há 33 anos não dá para se repetir. Não é para isso que tanta gente perdeu a vida”, disse.
Depois de uma queda de 10 pontos percentuais de seu índice de aprovação em junho, Bachelet recuperou parte da popularidade. Pesquisa divulgada no domingo pelo jornal “El Mercurio” aponta que sua aprovação é de 57,6%, ainda superior aos 54% de votos de sua vitória, mas abaixo dos 63% que tinha em abril.
Da Assessoria de Comunicação do Cremepe.
Com Informações de RAUL JUSTE LORES, da Folha de São Paulo.
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