Publicado em: 26/09/2006 | Por: Lourival Quirino da Silva Jr.
Estudo do Ipea mostra que sistema nacional está no limite por má gestão; tendência é que demanda cresça
Basta um aumento de 10% no número de pacientes que aguardam transplante de órgãos, sem o aumento da oferta, para que as filas de espera no País entrem em colapso. A conclusão é de um estudo do economista Alexandre Marinho, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
Apesar de hipotética, a projeção não é absurda. Nos últimos cinco anos, a fila cresceu 56% – de 43.581 pessoas para 68.195. E a tendência é continuar aumentando por causa do envelhecimento da população, da maior incidência de doenças crônicas e da maior precisão de diagnósticos.
Segundo a pesquisa de Marinho, o Sistema Nacional de Transplantes – segundo maior do mundo, com gastos de mais de R$ 500 milhões por ano financiados pelo SUS – opera num tênue estado de equilíbrio. Em 2005, cerca de 16 mil transplantes foram realizados, enquanto 66.263 pessoas aguardavam nas filas. Hoje são mais de 68 mil, com tempo de espera que pode passar de cinco anos, dependendo do órgão.
Entre as explicações identificadas no relatório do Ipea para a situação caótica do sistema estão o baixo índice de aproveitamento de órgãos e a falta de incentivos às equipes de transplantes. “Mais de 70% são feitos em hospitais universitários, que sofrem de graves problemas de recursos e gestão.” Completam o diagnóstico a má gestão de filas e a falta de normatização dos critérios de espera (para alguns órgãos, vale a ordem de chegada; para outros, a gravidade do caso), e a subnotificação das mortes encefálicas. “O Brasil aproveita só 20% dos órgãos disponíveis. Os EUA, 50%”, diz Marinho.
O Estado mostrou ontem que só 11 das 27 unidades da Federação realizam transplante de fígado, o que obriga os pacientes a deixar suas cidades e migrar para onde há equipes credenciadas. Eles chegam a ficar mais de um ano longe de casa.
DISPARIDADE – Para o diretor do Sistema Nacional de Transplantes, Roberto Schlindwein, o crescimento da fila é natural. Mas a desproporção entre oferta e procura seria menos preocupante com o treinamento das comissões intra-hospitalares de transplantes e a implantação do sistema informatizado de listas. “Isso permitiria o atendimento de urgência em Estados vizinhos, dados mais confiáveis e imediatos.”
De acordo com uma norma de 2005, os hospitais com mais de 80 leitos devem ter uma comissão de doação de órgãos encarregada da identificação de possíveis doadores e do contato com as famílias. O objetivo é descentralizar o processo, concentrado nas centrais estaduais de captação. Mas o governo nem sequer tem o controle de quantas foram criadas desde então no País.
Além disso, existe uma grande disparidade entre os 27 Estados. Roraima e Tocantins, por exemplo, sequer têm centrais de captação de órgãos. São Paulo concentra grande parte da demanda – 16.081 de pessoas aguardando um órgão, quase o dobro do segundo colocado, Minas Gerais, com 8.155.
“Existe uma grande disparidade, o que resulta em chances desiguais para os brasileiros”, diz a presidente da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), Maria Cristina Ribeiro de Castro. A médica condena a idéia, disseminada por algumas campanhas, de que faltam doadores no País. O Brasil tem uma média de recusa familiar considerada baixa, de 30%.
BUROCRACIA – Mas as famílias de doadores desanimam diante da burocracia, falta de informação e mesmo do atendimento pouco acolhedor, que desestimula a ceder os órgãos de parentes. O processo todo, da identificação do doador e retirada do órgão à liberação do corpo, pode durar 48 horas. “Apesar de custoso para a família, esse tempo é necessário”, diz o coordenador da Central de Transplantes de São Paulo, Luiz Augusto Pereira.
Eunice Perillo, de 46 anos, desistiu de doar os órgãos do marido, em 2005. “A primeira coisa que perguntei foi quanto tempo ficaria sem o corpo”, conta. “A médica me respondeu dois a três dias. E eu teria que ir buscar no IML.” Eunice desanimou. “Pensei nas pessoas que estavam esperando os órgãos, mas disse: “Eu sinto muito, mas não vou doar”.”
“Muitos casos de recusa vêm da revolta com o atendimento do SUS”, diz Pereira, da Central de Transplantes de São Paulo. “Tecnicamente o paciente é bem cuidado, mas isso poderia acontecer em condições mais humanas, como ficar em um leito e não no corredor de um pronto-socorro.”
Espera aqui é 20 vezes maior que na Inglaterra
O tempo médio que um brasileiro espera por um transplante de fígado é o dobro do que aguarda um paciente norte-americano e até 20 vezes maior do que um inglês. A agonia pode se arrastar por até quatro anos e meio. A espera por um rim é ainda maior: cinco anos e meio.
Os dados são da pesquisa de Alexandre Marinho, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Prazos longos demais para pacientes que têm sua qualidade de vida comprometida pelas doenças ou necessitam de hemodiálise, como os que aguardam um rim.
Leomar Gregório, de 38 anos, presidente da Associação dos Pacientes e Doadores de Rim de Sorocaba e Região, está há 15 anos na fila. “Fui chamado quatro vezes para o transplante, mas não havia compatibilidade.” Gregório divide o tempo entre a associação e três sessões semanais de hemodiálise. “Procuro levar uma vida normal”, diz.
O pesquisador do Ipea diz que a espera tem relação direta com a gestão do sistema de transplantes. No Brasil, é praticamente impossível determinar, a partir de dados do Ministério da Saúde, o tempo na fila para a maioria dos transplantes e faltam informações sobre as taxas de mortalidade durante o período.
Algumas ações tentam reverter a situação. Uma delas foi a adoção, há pouco mais de dois meses, do Meld – exame que determina a gravidade do estado do paciente – como critério para o transplante de fígado em vez da ordem de chegada. “Nos países em que o Meld foi adotado, a taxa de mortalidade pós-transplante não aumentou”, diz o presidente da Associação dos Transplantados de Fígado e Portadores de Doenças Hepáticas (Transpática), Ervin Moretti.
Da Assessoria de Comunicação do Cremepe.
Com Informações de Emilio Sant”Anna, do jornal O Estado de São Paulo.
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