Publicado em: 01/08/2005 | Por: Lourival Quirino da Silva Jr.
Teresa Gabriel, promotora de eventos, se dá direito a cochilo na hora do almoço.
Correr, correr, correr. Acolhida em massa no final do século passado, a cultura de fazer o máximo possível num mínimo de tempo começou a enfrentar enfáticos questionamentos. Afinal, para que tanta pressa?
Colocando o pé no freio, movimentos mundiais deram largada ao culto à vagareza. Neles, desacelerar passou a ser a palavra de ordem. Em casa, no trabalho, nas relações e no ritmo interior, levar a vida com mais calma pode se transformar na tendência comportamental dos próximos anos.
A discussão é o tema principal do livro “Devagar” (ed. Record, R$ 40), do jornalista escocês Carl Honoré –que se autodefine como um “ex-viciado” em velocidade. Ele viajou o mundo rastreando indícios do movimento.
Em 350 páginas, Honoré introduz o leitor ao universo dos “desaceleradores do tempo” –organizações que decidiram combater a mania moderna de velocidade.
São grupos como o italiano Slow Food, que defende a alimentação sem pressa; o Città Slow, ou cidades do bem viver, onde diminuir o ritmo é lei; o japonês Clube da Preguiça; a norte-americana Fundação Longo Agora; e mesmo o SuperSlow, filosofia esportiva que recomenda musculação em câmera lenta.
O movimento conta até com uma conferência anual, a da Sociedade para a Desaceleração do Tempo, que usa a palavra “eigenzeit” –do alemão “tempo próprio”– para resumir suas convicções. O evento acontece em Wagrain, cidade nos Alpes austríacos. No livro, Honoré adianta-se na defesa dos participantes:
“Os desaceleradores não são sobreviventes enferrujados da era hippie. Longe disto. São exatamente aqueles cidadãos ativos que encontramos em reuniões comunitárias em qualquer parte do mundo –advogados, consultores, arquitetos, médicos, professores.”
Mas o que motivaria uma mudança de padrões tão brusca em pessoas que normalmente mantêm a urgência como marca de suas agendas? A incidência de doenças decorrentes desse estilo de vida é um dos motivos. Some-se a ela a insatisfação diante da incessante correria, sinalizam os especialistas. E, mesmo no cenário brasileiro já é possível encontrar exemplos de quem deu de ombros para a louvação à pressa e decidiu seguir seu caminho num ritmo mais tranqüilo.
A cirurgiã plástica Cristina Pires Camargo, 39, desistiu da dupla jornada. Durante quatro anos, ela trabalhou ao mesmo tempo na indústria farmacêutica e no consultório. Há três, abandonou a primeira opção. E mais: fechou a agenda às sextas-feiras, quando troca o expediente por partidas de tênis com os filhos.
“A gente não desacelera com medo de ser chamado de vagabundo, de preguiçoso. Antes eu não almoçava nunca e via meus filhos muito pouco. É legal financeiramente, mas não compensa. Se eu não estiver com eles agora, como vou querer que sejam meus amigos quando chegarem à adolescência?”, diz.
Quando o publicitário José Buffo, 48, percebeu que precisava de férias, atinou que algumas semanas não seriam suficientes para reduzir o seu ritmo de vida. Desde que saiu da faculdade, a vida foi um corre-corre. “É da natureza dessa atividade. O pique sempre foi muito intenso. Eu estava, de fato, muito acelerado”, diz. No ano passado, então, resolveu fazer uma pausa de 12 meses para uma “viagem interna”. “Queria ficar comigo mesmo o maior tempo possível.”
Além de se afastar da atividade profissional, ele também deixou de lado seus hobbies tradicionais. “Todo mundo tem uma válvula de escape, correr, nadar, mas isso também vira um compromisso sério, com hora na agenda. Não queria saber mais disso”, lembra.
A primeira coisa a fazer foi… nada. “Nos dois primeiros meses, levantava cedo e fazia absolutamente nada. É uma boa maneira de meditar sobre a vida. Depois fiz algumas viagens, li alguns livros, fiz alguns cursos, mas me dava o luxo de interrompê-los quando eu bem entendia”, afirma.
O publicitário também resolveu tirar o pé do acelerador, literalmente: “O carro deixou de existir para mim. As pessoas são dependentes de carro. Saía de bicicleta, de ônibus, a pé. O cenário é outro, muda completamente”.
Quando voltou ao trabalho, ele diz ter experimentado a sensação de ser “um estranho no ninho”. “Voltei muito mais desacelerado. Hoje, quando tenho que trabalhar até mais tarde num dia, compenso no outro. Antes eu não sabia fazer isso. Precisei sair fora para perceber que ninguém é insubstituível. O mundo não pára.”
Médicos criam o termo “doença da pressa”
“Esse movimento é fantástico para o gerenciamento do estresse, mas a realidade é que nossa sociedade gratifica quem está ocupado todo o tempo. A idéia de que “quanto mais correr, melhor” é muito forte”, analisa Ana Maria Rossi, presidente no Brasil da Isma (International Stress Management Association), entidade internacional que estuda o estresse.
Uma pesquisa feita pela instituição com mil brasileiros economicamente ativos revelou que 30% deles sofriam da “doença da pressa”, apresentando sintomas físicos (hipertensão e problemas cardiovasculares), emocionais (angústia) e comportamentais (abuso do álcool). “São pessoas que se tornam agressivas se o carro começa a andar mais devagar e que tendem a empregar a bebida como um “amortecedor” da pressão cotidiana”, diz Rossi.
O estudo aponta que só 8% dos entrevistados se davam conta de que deveriam reduzir o ritmo de vida e estavam tomando ou já tinham tomado alguma providência para isso.
Outros 13% achavam que deveriam ir mais devagar, mas não sabiam como fazê-lo. “Como o modelo predominante é o de cultuar a velocidade, quem decide que precisa negociar horários no trabalho para ter mais tempo livre esbarra em resistência”, observa Rossi.
Apesar disso, ela acredita que um reforço ao movimento pela desaceleração pode aparecer dentro das corporações. “As empresas já notaram que a margem de erro de quem faz tudo ao mesmo tempo é muito maior. Isso poderá valorizar o trabalho feito com calma”, explica.
Depois de 30 anos acelerados e oito na “velocidade máxima”, o executivo Acacio Queiroz, 56, fez exigências bem diferentes das que costumava ao assumir um novo emprego.
“Antes eu viajava demais. Impus o limite de quatro viagens internacionais por ano. Não como mais correndo, passo pelo menos quatro horas por dia com minha mulher e vou ao cinema todas as semanas”, elenca.
O saldo é positivo em vários aspectos da vida. “Parei de engordar, tornei-me mais produtivo e meu casamento entrou em sua melhor fase”, resume ele.
Para quem sempre se encontra superatarefado, vale checar a relevância real de suas tarefas. “É preciso olhar para si mesmo e fazer a distinção entre o que é importante e o que é necessário”, ensina o homeopata e pediatra Nicolas Schor, autor do livro “As Doenças que Você Tem… E Não Sabe!” (ed. MG, R$ 30), que aborda distúrbios da modernidade.
“As pessoas estão vivendo como animais, apenas lutando pela sobrevivência”, avalia ele. “É preciso assumir as rédeas da vida e descobrir que existe uma hora em que o correto é desligar o celular e ir brincar no parque.”
“Durante 12 anos, eu não comi nem dormi direito porque acreditava que devia viver a todo vapor para conseguir bens materiais”, diz Valtencir Bertone, 33, hoje professor de “bartender”, que chegou a tocar seis negócios ao mesmo tempo, trabalhando 18 horas diárias.
Um dia, ao saber que a filha estava indo mal na escola, ligou para a ex-mulher para reclamar. “Ela me perguntou se eu lembrava que a filha era tão dela quanto minha. Foi aí que a ficha caiu”, conta ele, que resolveu desacelerar a partir desse episódio. “Hoje preparo o café da manhã da minha filha e só acordo para o mundo depois das 9h30. O melhor é a sensação de que tenho o controle da minha vida. As pessoas passaram a me respeitar mais”, afirma.
A executiva Scheila Clezar, 38, também fez adaptações na rotina para ter mais tempo para o filho. “Fui horrorosamente “workaholic”, trabalhei a licença-maternidade inteira. Quando dei por mim, meu filho estava andando sem fraldas. Então me toquei de que tinha perdido algo importante”, diz ela, que hoje não agenda nenhum compromisso para os primeiros horários da manhã. “No começo do dia, tomo café com ele e o levo à escola”, conta.
Para Schor, as seqüelas do modelo de criação em que os pais “substituem formação por informação” só serão visíveis dentro de dez ou 15 anos. “Só então saberemos o que vai realmente acontecer a essas crianças cujos pais estiveram sempre correndo”, avalia.
Cochilo no sofá
Ex-funcionária de uma locadora de louças para eventos, Teresa Gabriel, 46, cansou de correr para lá e para cá e reorganizou toda a vida para driblar a pressa. “Enfrentava um trânsito de duas horas todos os dias, fora a correria natural do setor. Não dava”, lembra.
Paulatinamente, ela largou o emprego, planejou um negócio próprio, mudou-se e montou a sede da sua empresa a “duas quadras e meia” da nova casa. “Hoje posso almoçar em casa todos os dias, gasto pelo menos uma hora no almoço e ainda dou uma descansadinha no sofá de casa. Melhorou muito, antes vivia eternamente angustiada”, relata.
Aos que invejam e lamentam viver correndo, vale notar que modificar os hábitos da vida requer, mais uma vez, calma. É preciso readaptar a rotina sem pressa. Devagar e sempre.
Da Assessoria de Imprensa do Cremepe.
Com Informações da Folha de São Paulo.
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